
A Bíblia - Uma inspiração divina
Para muitos, na maioria fundamentalistas, os autores da Bíblia foram diretamente inspirados e influenciados por Deus. Ou seja, Deus pré-determinou cada palavra que os autores escreveram. Esta afirmação deve ser observada com cuidado, visto que, numa leitura mais aprofundada da Bíblia é fácil perceber a ocorrência de vários estilos, isto é, diferentes autores. Se Deus ditou palavra por palavra, a Bíblia deveria possuir um estilo literário único, o que não está evidente nas Escrituras de que hoje dispomos. Por exemplo, o Livro de Isaías foi escrito por dois autores, haja vista a diferença de estilos dentro do mesmo texto.
Outros grupos acreditam que cada autor expressou seus pensamentos através do estilo literário próprio, mas guiados por Deus para não cometessem erros. Também há aqueles que acreditam que os textos escritos por autores com um alto grau de espiritualidade conseguiram transmitir, por meio de seus próprios pensamentos, a vontade de Deus. Não defendem a idéia de que a Bíblia é infalível, mas o fato de seus autores terem sido escolhidos por Deus por sua natureza já os exime de qualquer culpa por eventuais erros e falhas.
Para os conservadores da Bíblia, o livro santo não é para a compreensão de pessoas comuns, devendo ser aceito por aqueles que não o compreendem. De certa forma, é um tipo de pensamento medieval, período da história humana onde qualquer questionamento religioso era sumariamente proibido. Para eles, detalhes histórico-geográficos e científicos têm pouca importância e eventuais erros neste sentido podem ser admitidos pois não afetam a essência da mensagem bíblica.
Em síntese, só há um detalhe que se pode afirmar, categoricamente: as versões da Bíblia de que hoje dispomos são cópias de cópias de outras cópias das escrituras originais, as quais se perderam. A partir deste ponto, podemos deduzir o que pode ter acontecido:
1. erros de copiagem acidentais;
2. mudanças intencionais dos textos feitas a fim de ficarem condizentes com a teologia;
3. erros de tradução acidentais;
4. distorções acidentais feitas pelos tradutores com o objetivo de equiparar os textos bíblicos com o pensamento teológico.
Além disso, o meio acadêmico mais liberal cogita a idéia de que as antigas escrituras hebréias e cristãs incorporavam textos de escritos ainda mais antigos e que foram criados por autores desconhecidos, além de muitas concepções supostamente adquiridas a partir de algumas sociedades próximas, como por exemplo, o dilúvio universal, a criação descrita no Gêneses e a passagem descrita em Êxodo 21:22, que desvaloriza a vida de um feto, temas estes que também eram conhecidos pelas sociedades assíria e babilônica.
Se a Bíblia contém erros, então os fundamentalistas correm o risco de verem suas doutrinas e crenças desabarem diante das novas evidências apresentadas pelos estudiosos bíblicos. Para os liberais, a Bíblia contém erros e os textos foram escritos por autores diversos com limitado conhecimento científico e introduziram nos textos seus próprios sistemas de crenças e interpretações. Hoje, conhecem-se inúmeras facções religiosas cujas bases de suas doutrinas foram extraídas a partir de diversos significados e interpretações dos versos bíblicos.
Entretanto, conservadores e liberais possuem diferentes conceitos da natureza das escrituras e são levados a desenvolver diferentes sistemas de moralidade cristã. Quando se deparam com questões como aborto, homossexualidade, sexo, casamento etc., cada grupo interpreta a Bíblia à sua maneira e, freqüentemente, chegam a conclusões mais diversas ainda.