“Aquele que traduz um versículo literalmente é um falsificador; o que acrescenta alguma coisa é um blafesmo”.
(do Mixná: Qiddushin 49,4)
Leia também: Crítica Textual
Para muitos, a Bíblia não é um livro comum, não é um livro humano. A Bíblia é o livro da Palavra de Deus inspirada pelo próprio Criador. É o livro que Deus concedeu ao Seu povo para ensina-los a Verdade na qual devem acreditar e a vida de devoção que deve ser seguida. É por isso que a Bíblia é tão importante para aqueles que acreditam em seu conteúdo. A fé sobrepõe a razão e questionar o texto bíblico é visto como um pecado para muitos. Segundo alguns teólogos, sem as Escrituras Sagradas o “crente” não teria a Palavra de Deus e ficaria alheio a qualquer modelo daquilo que é considerado como a Verdade e daquilo que é tido como mentira, o que é justo e o que é injusto.
Esta é a visão religiosa da análise bíblica. Mas existe muita controvérsia no meio acadêmico com relação à veracidade e autenticidade dos textos bíblicos, o que vem causando inúmeras discussões entre estudiosos preocupados em estudar o livro mais lido no mundo.
Não nos cabe dizer se os textos são ou não autênticos. Este trabalho se limitará a apresentar algumas evidências produzidas no meio acadêmico e que ajudam a formar um melhor entendimento acerca das Escrituras.
A Bíblia Sagrada é uma importante coleção de escritos que englobam mais de mil anos de história da relação de Deus com os Hebreus e o povo cristão. Escrita em vários idiomas, ela envolve inúmeras formas literárias e reflete culturas muito diversas. Estas considerações são importantes para entender a Bíblia apropriadamente em seu contexto. Existem várias diferenças doutrinárias entre várias denominações cristãs, as quais utilizam a mesma Bíblia. Tantas diferenças entre igrejas e facções religiosas têm levado alguns cristãos a afirmar que outros cristãos não são, de maneira alguma, adeptos do Cristianismo. A interpretação bíblica e a teologia diferem de igreja para igreja.
A interpretação bíblica e a teologia também mudam de tempos em tempos. Por exemplo, até cerca de 110 anos atrás, alguns grupos cristãos asseguravam que havia uma dupla ordem moral: brancos e negros. Acreditava-se que os brancos fossem superiores aos negros e, por conseguinte, os negros deveriam estar subordinados àqueles porque a escravidão era uma instituição estabelecida por Deus sendo, inclusive, apoiada pela Igreja. O conflito sobre a escravidão levou a divisões que originaram outras denominações cristãs. Esta mesmas denominações não defendem a escravidão hoje, por uma razão muito óbvia. Com certeza, não foi a Bíblia que se modificou, mas sim a sua interpretação.
Novas informações científicas e mudanças sociais são algumas formas de modificar a interpretação da Bíblia e o desenvolvimento de nossas crenças. A maioria das igrejas acredita que a Bíblia foi inspirada por Deus e nela se encontra a autoridade para a fé cristã. Às vezes, a Bíblia se refere muito limitadamente a um determinado assunto e isso dá margem à diversas interpretações, a maioria errônea, dentre elas as visões sobre a homossexualidade.
Nenhuma das versões da Bíblia de que hoje dispomos pode ser atestada como uma cópia fiel das antigas escrituras originais. A maioria das pessoas desconhece a Bíblia em seu idioma original, estando limitadas às diversas traduções sofridas no passado. Nenhum dos manuscritos originais chegou até nós, hoje, devido ao material perecível no qual eles foram escritos e o fato de que os imperadores romanos ordenaram a destruição dos manuscritos durante as perseguições aos cristãos. Enquanto não se conhece a existência de nenhum dos manuscritos originais, algumas antigas transcrições sobreviveram durante anos.
O mais antigo manuscrito hebreu conhecido é uma cópia do Livro de Isaías, escrito em Hebreu, no século II. Foi encontrado em 1947, numa caverna próxima à Jericó. O mais antigo fragmento conhecido está na Biblioteca John Ryland, em Manchester, Inglaterra. Este fragmento é do século II d.C. Centenas de outros antigos manuscritos gregos têm sido encontrados, mas a mais importante das traduções gregas é conhecida como Septuagenta, a tradução do Velho Testamento, que ocorreu entre 250 a.C e 100 a.C. Esta tradução foi feita pelos judeus que viviam no Egisto. A Septuagenta foi largamente utilizada na Palestina e distribuída através dos povos de língua grega do Mediterrâneo durante a época de Cristo e século I da Era Cristã. Os próprios Apóstolos de Cristo utilizavam esta tradução em seus ensinamentos.
Logo fêz-se necessária uma tradução do grego para o latim, pois muitos povos da Europa Ocidental não compreendiam o grego. Tais traduções reunidas construíram a primeira Bíblia em latim. Preparadas por diferentes pessoas de educação variadas, as traduções eram irregulares e incorretas. Por volta do século II d.C., havia um bom número de traduções latinas, a maioria circulando em latim antigo ou Ítala.
Devido às variantes nas leituras dos copistas, revisores ou tradutores, o Papa Damásio requisitou São Jerônimo para revisar e corrigir o Novo Testamento. São Jerônimo começou sua revisão com os 04 Evangelhos e, em seguida, revisou os livros remanescentes do Novo Testamento, porém mais apressadamente. O trabalho foi completado em Roma por volta de 383-4 d.C. Depois da morte do Papa Damásio, São Jerônimo foi até a Terra Santa, onde viveu 34 anos, devotando seu tempo em revisar a Bíblia, traduzindo o Velho Testamento do hebreu para o latim.
Devido ao fato deste trabalho ter sido uma iniciativa particular, São Jerônimo foi acusado de modificar o texto da Bíblia, mas por volta do século IX d.C. a sua versão foi universalmente aceita. Em vista desta adoção geral, sua versão assumiu o nome de "Vulgata", a disseminada ou a Bíblia do povo.
Em 08 de abril de 1546, a Igreja, no Concílio de Trento, reconheceu a Vulgata como a tradução oficial da Igreja. Entretanto, isto não significava que ela era preferida à Septuagenta ou outros manuscritos, ou que estivesse totalmente livre de erros. Pelo contrário, a Igreja reconheceu certas limitações nas traduções iniciais e ordenou uma revisão. Esta versão revista foi publicada em 1592 pelo Papa Clemente VII.
Segundo alguns estudiosos, o texto de São Jerônimo sofreu muitas alterações através dos anos. Para formar uma Bíblia completa, os copistas da época formavam alguns textos a partir de textos mais antigos, em latim e alguns da Vulgata mais recente: ambos os textos estavam em circulação. Um monge, por exemplo, podia memorizar várias passagens a partir das velhas versões, durante os estudos, mas então, ao fazer uma cópia da Vulgata, inconscientemente se desviava para o antigo texto que também lhe era familiar. Para estes estudiosos, muitos dos copistas não exercitavam seu senso crítico e incorporavam textos de outros manuscritos, passagens paralelas e textos da liturgia.
Enquanto a Vulgata se tornou a versão oficial da Igreja Ocidental, isso não impediu que outras traduções tivessem sido feitas. Uma versão copta apareceu no século II d.C. Ulfilas, um bispo árabe, fez uma tradução gótica no século IV, e havia numerosas versões sírias, armênias, árabes e eslavas nos primeiros séculos.
A invenção da imprensa, por Gutemberg, no século XV, revolucionou o mundo antigo. Antes delas, todos os manuscritos e livros eram copiados a mão e apenas os mais ricos tinham recursos para possuir textos impressos. Subitamente, o trabalho tedioso dos copistas profissionais tinha terminado. Não somente o seu trabalho, mas também os erros de copiagem.
O primeiro livro impresso por Gutemberg foi justamente a Bíblia, na tradução da Vulgata latina. Quase 02 anos foram necessários para imprimir e encadernar a Bíblia, sendo completada em 1452. A primeira edição contou com a impressão de mais de 200 cópias. Por volta de 1522, já haviam bíblias impressas em alemão, italiano, francês, flamengo e russo.
A Bíblia de Gutemberg, de 1452, foi a primeira Bíblia impressa a partir da prensa móvel no mundo ocidental. A Bíblia era em latim, revista e traduzida por muitos estudiosos, inclusive por São Jerônimo, que revisou e traduziu o Novo Testamento a partir do grego. Este texto, em latim, não contém divisões dos versos e contém breves passagens que nunca foram encontradas nos antigos manuscritos gregos. Um exemplo é o verso da Trindade, em I João 5:7-8, O Pai, o Verbo, o Espírito Santo, e estes três são a mesma coisa. E três são os que dão testemunho na terra...". Esta passagem nunca foi encontrada nos manuscritos antigos. Entretanto, o verso está em latim e quando os tradutores do Rei James não o encontraram nos manuscritos gregos que estavam utilizando juntamente com a Vulgata, eles simplesmente introduziram a passagem do latim para o grego e a usaram como base para a tradução do inglês que está incluída na versão da Bíblia de Rei James. Outras passagens, incluindo os sete últimos versos do Livro da Revelação estavam também faltando no texto grego. Assim, os estudiosos também os traduziram do latim para o grego e então basearam a versão de Rei James em sua tradução inglesa do grego que haviam criado sem qualquer evidência dos antigos manuscritos.
No que se refere à tradução da Bíblia para o inglês permanecem, ainda, muitos outros mistérios. Segundo pesquisas, um bispo de Landisfarne, na Inglaterra, chamado Aidan, falecido em 651, estimulou seus fiéis a lerem as escrituras em seu próprio idioma - o inglês - por meio de algumas traduções. Entre 721 e 901, acredita-se que inúmeros escritores tenham traduzido partes de todas as histórias da Bíblia para o inglês arcaico. No século X estava em circulação uma tradução dos primeiros sete livros da Bíblia e o Livro de Jó, feita por um arcebispo de Canterbury, de 994 a 1005.
A primeira versão católica completa e impressa da tradução inglesa reconhecida como tal apareceu um pouco mais tarde, por volta do século XV. É conhecida como a versão Donay-Reims. Foi uma tradução da Vulgata latina e foi produzida na França, por estudiosos ingleses que tinham escapado das perseguições católicas na Inglaterra. O Novo Testamento foi publicado em Reims, em 1582 e o Velho Testamento em Donay, em 1610.
Desde a tradução Donay-Reims, a língua inglesa sofreu contínuas mudanças. Foi necessário, por conseqüência, revisar e atualizar a Bíblia de tempos em tempos. O bispo inglês Challones publicou uma revisão completa da Versão de Donay-Reims, em 1750, e muito poucas outras revisões menos importantes apareceram de lá para cá.
Além das versões da Bíblia católica mencionadas, inúmeras versões protestantes da Bíblia, em inglês, apareceram desde a Reforma. Wilhiam Tyndale (1484-1536) foi um dos primeiros tradutores protestantes da Bíblia. Miles Coverdale traduziu e imprimiu uma Bíblia completa em inglês, em 1535. Sua tradução foi a primeira edição inglesa da Bíblia a separar os livros deuteronômicos dos livros protocanônicos. Os livros deuteronônicos foram colocados atrás do texto regular da Bíblia.
Quando James I subiu ao trono da Inglaterra, em 1603, inúmeras e variantes Bíblias estavam em circulação. Conseqüentemente, em 1604, iniciou-se uma revisão da Bíblia Protestante. Um grupo de estudiosos se organizou e usando a chamada "Bíblia do Bispo" como base para sua nova tradução, produziram a versão do Rei James, a qual foi publicadas em 1611. Reconheceu-se que esta versão também possuía erros e uma revisão se deu de 1881 à 1885. De lá para cá, foi publicada a Nova Versão Inglesa da Bíblia e, em 1907, monges beneditinos do Mosteiro de São Jerônimo, em Roma, passaram a trabalhar numa revisão da Vulgata, parte dela terminada em 1987.
Mais do que um livro religioso, para muitos a Bíblia é um patrimônio cultural da humanidade. Plural do grego biblion (livro), o conjunto de textos que a compõe é uma biblioteca histórico-religiosa que contém uma diversidade de escritos autônomos. Cada livro tem uma história própria formada a partir de um determinado contexto histórico. Não se pode esquecer, igualmente, que o livro detém um determinado gênero literário e que cada autor, ao desenvolver seu conteúdo, tinha um propósito específico.
Os originais da Bíblia foram escritos em três línguas:o hebraico,o aramaico e o grego.O hebraico é uma língua muito antiga que já existia antes mesmo de os hebreus, isto é, os judeus aparecerem como um povo identificável. Nessa língua hebraica, foi escrito quase todo o Antigo Testamento. Algumas partes, porém, chegaram até nós apenas em aramaico, uma outra língua adotada mais tarde pelo povo judeu. Nessa língua, temos cinco capítulos do Livro de Daniel, algumas passagens do Livro de Esdras e frases do profeta Jeremias. Talvez também essas partes tenham sido escritas, originalmente, em hebraico. Outras partes chegaram até nós numa tradução em língua grega: o Livro do Eclesiástico (um terço do original hebraico foi descoberto em 1896), os Livros de Baruc, de Tobias, o 1º Livro dos Macabeus, o de Judite e algumas partes de Daniel e Ester. Na língua grega, foram escritos dois livros do Antigo Testamento: o Livro da Sabedoria e o 2º Livro dos Macabeus.
A história da formação e transmissão dos textos que compõem os livros bíblicos acompanha a própria evolução do povo hebreu. Neste sentido, a Bíblia é a fonte de informações mais rica capaz de descrever a trajetória do povo hebreu, até o advento do Cristianismo, quando o livro sagrado deixa de ser patrimônio exclusivo dos judeus.
De acordo com a narração bíblica (livro do Gênese), a família de Abraão deslocou-se de Ur, no Sul da Caldéia, para o Noroeste da Mesopotâmia (Haran), e daí para Canaã ou Palestina.
“Ora,
o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu
pai, para a terra que eu te mostrarei....”[1]
Chegando em Canaã, os hebreus se dividiram em várias tribos, ocupando os vales férteis do Norte e as zonas montanhosas do Sul. Parte destas tribos, sob o comando de Jacó, migrou para o Egito, onde viveram um período de relativa paz com os egípcios, até que a tirania de novos Faraós escravizou os hebreus e estes, liderados por Moisés, abandonaram o Egito e retornaram à Palestina. Depois de errarem pelo deserto de Sinai, pararam na região leste do mar Morto e do Jordão, sendo, por Josué, instalados entre o Rio Jordão e o mar. Foram governados, sucessivamente, por juízes e reis. David estabeleceu o seu poder militar e o seu sucessor Salomão construiu o Templo de Jerusalém. Depois dele, as dez tribos do Norte, lideradas por Jeroboão, se separaram, formando um reino independente – o Reino de Israel. As duas tribos do sul, que haviam permanecido fiéis ao sucessor de Salomão – Roboão -, formaram o Reino de Judá, com capital em Jerusalém.
Este período que abrange desde a migração do clã de Abraão, o estabelecimento dos hebreus na Palestina até o Êxodo (a saída do Egito) e o Cisma (separação do Reino em duas partes) está descrito na Bíblia atestando a trajetória histórica do povo hebreu paralela à adoração de um Deus único. Especula-se que o início da redação dos textos bíblicos se deu por volta do século V a.C. e seu conteúdo dá testemunhos das diversas fases da religião do povo hebreu, demonstrando grande preocupação pelo monoteísmo. Mesmo após a Diáspora, a expulsão dos hebreus da Palestina pelo governador Adriano, o povo continuou fiel às suas convicções religiosas num Deus único, princípio religioso que ficou conhecido como Judaísmo.
Como explica Rubim Santos Leão de Aquino[2],
“Traçando o itinerário espiritual dos hebreus, no decurso das diversas experiências de sua História, a Bíblia nos permite compreender a força ideológica de uma religião revelada, que conseguiu manter a unidade de um povo mesmo quando em estado de dispersão, que, afinal, lhe será característico até os nossos dias.”
Derivado de Yehudi (“descendente de Judá) – o quarto filho de Jacó, o Judaísmo está baseado não somente no monoteísmo, mas também na observância dos preceitos do Tora ou Pentateuco, que cobrem todos os aspectos da vida espiritual, moral e religiosa, e estão sintetizados nos Dez Mandamentos, transmitidos por Deus a Moisés, segundo o relato bíblico. O Tora, ou Pentateuco, abrange os cinco primeiros livros da Bíblia, sendo que os livros restantes, conhecidos pelos cristãos como Velho Testamento, incluem salmos e profecias.
Foi entre o século V a.C. e o século II d.C. que se definiram as coleções de livros que, posteriormente, passaram a fazer parte do cânon, os livros sagrados ou autorizados que passaram a fazer parte da lista de livros da Bíblia hebraica, segundo a tradição judaica, e que vieram a compor o Velho Testamento. Durante este período, os textos foram escritos, não apenas em hebraico, mas também em aramaico e grego.
Nos dias de hoje, aumentou-se o desejo de averiguar a verdade ou a falsidade histórica dessas narrativas, mas não se pode negar que, por intermédio da Bíblia, analisando o seu conteúdo histórico, hoje se sabe muito sobre o ambiente descrito no Antigo Testamento, as relações sociais, políticas, econômicas e religiosas dos hebreus. Neste sentido, não cabe discutir aqui a veracidade das narrativas dos textos bíblicos, quando seu conteúdo aponta para determinado contexto político-social. Antes deste propósito, o estudo comparativo das várias traduções destes textos bíblicos seria preponderante, visto que, na Bíblia e em suas diversas versões, os pontos geográficos e os eventos não parecem diferir. O que se observa, e daí advém a crítica de inúmeros pesquisadores, é a visível e preocupante variação, ou melhor, as controvérsias envolvendo estas versões e que são motivo de interpretações errôneas dos textos bíblicos, levando o homem a "assumir o papel de Deus" e “ditar”, ele próprio, os preceitos constantes nos textos bíblicos, acreditando ser o que realmente Deus queria ter dito.
Certa
"É que Deus se esqueceu de dizer e nós estamos apenas consertando..."
Não me cabe dizer e provar que a Bíblia não foi inspirada pelo Espírito Santo. Na minha opinião particular, não foi. É, simplesmente, um rico referencial histórico-social de um povo e de um determinado contexto, que não condiz mais com nossos dias. Particularmente, admiro na Bíblia os textos onde se exaltam o amor universal pregado por Jesus, no meu entendimento, o maior de todos os homens. E o maior de todos os homens NUNCA proferiu qualquer opinião sobre a homossexualidade. Justo ele, o embaixador de Deus na Terra.
Que cada um tire as conclusões que melhor lhe satisfizer. Mas desde que a conclusão final seja a maior e irrefutável de todas as verdades: DEUS É PURO AMOR...
A
Bíblia - Várias interpretações ![]()
O que é curioso é que existem inúmeras denominações religiosas e cada qual segue um conjunto de textos, a partir de interpretações próprias da Bíblia. Se a Bíblia não possui erros, mas existem diversas interpretações, qual delas está correta e pode ser chamada de infalível? Somente uma interpretação é verdadeira e, assim, percebe-se que as demais são falsas, num determinado grau. Isto supondo-se que a Bíblia, de onde os textos são retirados, seja totalmente infalível.
Esta afirmação, diante de tantas cópias e traduções, traz à tona a delicada indagação sobre a infalibilidade da Bíblia. Algumas passagens nas Escrituras em hebreu, por exemplo, podem ser interpretadas de diversas maneiras, justamente porque a língua hebraica é muito ambígua. Entretanto, não há como saber qual tradução é correta, ainda mais diante do fato de que as antigas escrituras originais não mais existem.
Nenhuma das traduções da Bíblia estão livres da parcialidade. Todas as versões são produto de tradutores que possuíam alguma formação teológica. O ser humano, muitas vezes, produz aquilo que "vem de encontro" às suas próprias crenças particulares. Em Êxodo 22:18 temos: "A feiticeira não deixarás viver.". No texto hebreu (que merece maior crédito do que o grego ou o latino por ser anterior a estes) consta "seja decretada a pena de morte para m'khashepah". Esta palavra significa "uma mulher que se utiliza das palavras para prejudicar outros", como causar a morte, por exemplo. Num sentido mais apurado, seriam as "mulheres que praguejam", mas esta tradução difere muito do texto atual.
Um outro exemplo similar de tradução errônea em algumas versões da bíblia se observa na palavra grega pharmakia, da qual a palavra "farmácia" é derivada. Ela se refere a prática de preparar poções envenenadas para fazer o mau ou matar. "Envenenador" ou, simplesmente, "assassino", seria uma tradução mais correta. Entretanto, muitas versões da Bíblia invertem o sentido do texto original para traduzir a palavra como "feiticeira" (aquela que prepara poções malignas).
Estas traduções invertidas têm causado muitas interpretações errôneas e levam inúmeros cristão a perseguirem (psicologicamente), os esotéricos, espiritualistas e místicos modernos, acreditando que estão cumprindo com a vontade de Deus.
Se
nos lembrarmos que os textos de que hoje dispomos são cópias de outras cópias,
podemos supor que os inúmeros processos de copiagem introduziram muitos erros
na Bíblia. Desta forma, cedo ou tarde, as cópias passaram a conter erros. Infelizmente,
não é possível detectar, com precisão, onde os erros ou inserções posteriores
surgiram.
A
Bíblia - Uma inspiração divina ![]()
Para muitos, na maioria fundamentalistas, os autores da Bíblia foram diretamente inspirados e influenciados por Deus. Ou seja, Deus pré-determinou cada palavra que os autores escreveram. Esta afirmação deve ser observada com cuidado, visto que, numa leitura mais aprofundada da Bíblia é fácil perceber a ocorrência de vários estilos, isto é, diferentes autores. Se Deus ditou palavra por palavra, a Bíblia deveria possuir um estilo literário único, o que não está evidente nas Escrituras de que hoje dispomos. Por exemplo, o Livro de Isaías foi escrito por dois autores, haja vista a diferença de estilos dentro do mesmo texto.
Outros grupos acreditam que cada autor expressou seus pensamentos através do estilo literário próprio, mas guiados por Deus para não cometessem erros. Também há aqueles que acreditam que os textos escritos por autores com um alto grau de espiritualidade conseguiram transmitir, por meio de seus próprios pensamentos, a vontade de Deus. Não defendem a idéia de que a Bíblia é infalível, mas o fato de seus autores terem sido escolhidos por Deus por sua natureza já os exime de qualquer culpa por eventuais erros e falhas.
Para os conservadores da Bíblia, o livro santo não é para a compreensão de pessoas comuns, devendo ser aceito por aqueles que não o compreendem. De certa forma, é um tipo de pensamento medieval, período da história humana onde qualquer questionamento religioso era sumariamente proibido. Para eles, detalhes histórico-geográficos e científicos têm pouca importância e eventuais erros neste sentido podem ser admitidos pois não afetam a essência da mensagem bíblica.
Em síntese, só há um detalhe que se pode afirmar, categoricamente: as versões da Bíblia de que hoje dispomos são cópias de cópias de outras cópias das escrituras originais, as quais se perderam. A partir deste ponto, podemos deduzir o que pode ter acontecido:
1.
erros de copiagem acidentais;
2. mudanças
intencionais dos textos feitas a fim de ficarem condizentes com a teologia;
3. erros
de tradução acidentais;
4. distorções
acidentais feitas pelos tradutores com o objetivo de equiparar os textos bíblicos
com o pensamento teológico.
Além disso, o meio acadêmico mais liberal cogita a idéia de que as antigas escrituras hebréias e cristãs incorporavam textos de escritos ainda mais antigos e que foram criados por autores desconhecidos, além de muitas concepções supostamente adquiridas a partir de algumas sociedades próximas, como por exemplo, o dilúvio universal, a criação descrita no Gêneses e a passagem descrita em Êxodo 21:22, que desvaloriza a vida de um feto, temas estes que também eram conhecidos pelas sociedades assíria e babilônica.
A
Bíblia - Fundamentalistas e Liberais
Se a Bíblia contém erros, então os fundamentalistas correm o risco de verem suas doutrinas e crenças desabarem diante das novas evidências apresentadas pelos estudiosos bíblicos. Para os liberais, a Bíblia contém erros e os textos foram escritos por autores diversos com limitado conhecimento científico e introduziram nos textos seus próprios sistemas de crenças e interpretações. Hoje, conhecem-se inúmeras facções religiosas cujas bases de suas doutrinas foram extraídas a partir de diversos significados e interpretações dos versos bíblicos.
Entretanto, conservadores e liberais possuem diferentes conceitos da natureza das escrituras e são levados a desenvolver diferentes sistemas de moralidade cristã. Quando se deparam com questões como aborto, homossexualidade, sexo, casamento etc., cada grupo interpreta a Bíblia à sua maneira e, freqüentemente, chegam a conclusões mais diversas ainda.
Não há nada na Bíblia que leve a crer que Deus se referiu à homossexualidade como sendo um pecado. Deus está interessado em nosso relacionamento com o próximo, nas coisas que acontecem em nossas vidas e na nossa relação com Ele mesmo. Não há nada na mente divina que possa estar contra um relacionamento baseado em amor e iniciado com liberdade de escolha, sem coerção, entre adultos, sejam homossexuais, bissexuais ou heterossexuais.
No que diz respeito à homossexualidade, os conservadores, freqüentemente, citam passagens específicas da Bíblia que condenam o comportamento homossexual. Já os liberais rejeitam estas passagens, acreditando que elas se referem apenas ao estupro, prostituição homossexual, abuso de menores, orgias etc., igualmente condenáveis quando se trata de prática heterossexual. Para os liberais, a Bíblia nada diz sobre relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo envolvendo relações de respeito e amor. A base para esta afirmação está nos ensinamentos de Cristo, concluindo que relacionamentos envolvendo dois adultos (tanto heterossexuais quanto homossexuais), baseados em consentimento mútuos e sem caráter exploratório é totalmente aceitável.
A Bíblia, igualmente, não se refere à orientação sexual do indivíduo. Faz alusão contra o estupro, prostituição masculina e feminina e a pederastia (sexo entre um adulto e um menor impúbere).
Muitos dizem que o comportamento homossexual não é "natural", sendo contrário à ordem da Criação. Atrás deste pronunciamento existem definições estereotipadas de masculinidade e feminilidade que refletem rígidos conceitos da sociedade patriarcal. Não há nada de "não-natural" em qualquer tipo de troca de amor, mesmo entre 02 pessoas do mesmo sexo, desde que esta experiência leve ambos os parceiros a um estado de plenitude e realização. Pesquisas atuais estão descobrindo novos fatos que estão produzindo uma nova conclusão de que a homossexualidade, longe de ser uma doença, pecado ou um ato de perversão, algo contrária à natureza, é uma forma natural e saudável de expressão da sexualidade humana. Estas pesquisas indicam que a homossexualidade é algo comum dado na natureza de uma parcela significativa de pessoas e que é imutável. Nosso preconceito rejeita pessoas ou coisas que estejam fora de nossa compreensão. Entretanto, o Deus da Criação declara "E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto." (Gêneses 1:31). A palavra de Deus em Cristo diz que somos amados, valorizados, livres e considerados como bens preciosos, não importando a maneira com que possamos ser avaliados por um mundo preconceituoso. A homossexualidade não é um pecado, mas um estilo de vida alternativo. Quando o sexo é utilizado para corromper, para promover luxúria, para propósitos exploratórios do ser, para razões egoísticas ou para ofender e magoar o próximo, então passa a ser imoral, seja ele hetero, bi ou homossexual.
É preciso que acreditemos em um Deus justo, que prega um relacionamento de amor, confiança e respeito entre os homens, não importando o gênero das pessoas envolvidas. A condenação bíblica da homossexualidade é baseada, pura e simplesmente, na ignorância humana, pois claramente denota que se trata de um problema de escolha, de uma rebelião deliberada contra Deus.
A essência da religião bíblica é sua pretensa segurança e confiança tão somente nas Escrituras, lida e interpretada literalmente. Infelizmente, a maior parte dos originais se perderam e restaram cópias, muitas delas mal feitas, destes originais. O problema maior é que a leitura literal nega a análise histórica aprofundada.
Ao ler a Bíblia como se Deus a tivesse escrito utilizando uma forma de "redator cósmico", os fundamentalistas ofuscam a verdadeira imagem de Deus: um Pai Universal que age na história da humanidade através de pessoas de carne e osso, como Moisés, Esther, Abrãao etc. Esta crença alcança sua máxima na doutrina cristã, que afirma ser Cristo a encarnação do Deus-vivo. Mais uma vez Deus se utiliza da carne para transmitir sua palavra. O encontro do humano com o divino, do histórico com o eterno, é essencial para o Cristianismo.
Os Fundamentalistas analisam o sentido literal da Bíblia e não o contexto histórico da formação textual. Ao rejeitar a necessidade do contexto histórico, eles afastam a história da questão religiosa e, ao negligenciar a história por trás da Bíblia, tentam apreciar as questões dos dias atuais, afirmando possuir a Verdade de Deus.
Quando se analisa uma passagem bíblica, deve-se observar sua linguagem original, autor, propósito, gênero literário, formação e contexto histórico-cultural. Deve-se, primeiramente, determinar o antigo propósito do texto antes de diferenciar suas implicações para a situação atual. Ou seja, muitas das passagens antigas podem não responder às questões atuais, pois foram formuladas num momento cuja situação nada tem a ver com o atual. Ao desprezar o ente humano e depreciar o histórico, algumas religiões fundamentalistas separam o quesito "humano" e "divino", traindo a essência da visão cristã.
Infelizmente, hoje, está amplamente difundida a noção de que odiar homossexuais é um comportamento perfeitamente aceitável. O ódio e a aversão aos homossexuais é, igualmente, pregado diretamente da tribuna de muitas igrejas com resultados terríveis. A causa de muitos suicídios envolvendo adolescentes está no fato destes indivíduos não aceitarem sua homossexualidade por pressão da família, da sociedade e da crença religiosa. Inúmeras pessoas perdem o direito à guarda de seus filhos ou o direito à visita por serem homossexuais. Homens e mulheres são agredidos e até mortos porque alguém disse que eram homossexuais. Muito potencial humano é sufocado e desperdiçado por pessoas que passam a vida reprimindo sua sexualidade, forçados a sentirem medo e repulsa pelos seus próprios sentimentos.
Aqueles que entendem as passagens da Bíblia como que condenando a homossexualidade, na verdade, estão iludidos por erros de tradução e pobreza na interpretação das Escrituras. A Bíblia sempre foi utilizada para justificar a escravidão, a inquisição, algumas formas de discriminação e subjugação de mulheres. Como aceitar que haja coerência em condenar a homossexualidade?
Numa análise mais profunda, a Bíblia não condena os atos entre indivíduos do mesmo sexo, em si, mas apenas se eles são manipulativos, abusivos ou anti-éticos, ocorrendo o mesmo tipo de condenação com relação a indivíduos heterossexuais.
Torna-se importante reunir os argumentos gerais sobre a homossexualidade na Bíblia e analisar se esta argumentação se refere à natureza humana ou aos atos praticados. Mais do que isso, deve-se observar, atentamente, o contexto histórico em que o texto foi desenvolvido.
Que cada um tire as conclusões que melhor lhe satisfizer. Mas desde que a conclusão final seja a maior e irrefutável de todas as verdades: DEUS É PURO AMOR...
[1] Livro do Gênesis, 12:1
[2] AQUINO, Rubim Santos Leão de; FRANCO, Denize de Azevedo; LOPES, Oscar Guilherme Pahl Campos. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1980, p. 130